Sunday, September 14, 2008

Dois

Seguem-se os Egafilmes (microfilmes relativos aos Maias ou aos amores de Pedro e Inês) do 11.º 2.ª. Para já, os de Pedro G., Francisco Ch., Sara A. & Sara C., Mariana & Sara M., Jorge, Cláudia & Joana R., Francisco D., Bernardo, Miguel S. & José, Joana O. & Inês, Carla, Pedro S., Marta, Alexis & Carlota, Catarina F., Catarina T..

Pedro G.

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Pedro G. (17,5) Concepção Cria-se um programa — radiofónico — em torno de Eça, surgindo depois, aí encaixado, o depoimento (fictício, claro) de um bisneto do escritor, simultaneamente professor (o engraçado — embora não se trate de brincadeira propositada — é que a personagem criada pelo Pedro tem algumas parecenças, de estilo, de pose, com Carlos Reis, talvez o queirosiano mais conhecido actualmente). Este segundo nível narrativo poderia corresponder a um programa de televisão. Expressão oral Há que distinguir a leitura em voz alta em off e a locução em frente da câmara (com discurso decorado ou talvez entrevisto em teleponto ou congénere). Nesta segunda parte, é mais a naturalidade da «representação» que deveríamos avaliar (por exemplo: acho que há excesso de pausas orais quando se diz «E, como Carlos, [...]», mas, como se está a fingir dizer um texto decorado, a pontuação já se justifica mais). Ambas as performances são bastante boas (na parte mais representada ouvi apenas uma atrapalhação leve em «portuguesas»; na parte em off, podíamos considerar que a pontuação escrita é talvez demasiado respeitada e que a intervenção final é excessivamente eufórica). Texto Já ficou implícito que me agradou a capacidade revelada para criar um esquema narrativo (verosímil, que é util para se falar de Eça; e que tem até uma inglesa leve ironia). O contexto engendrado implicava um discurso académico, o que quase obrigava a que se recorresse a recolha de textos de ensaio ou de manuais — teria preferido que a escrita fosse mais continuadamente própria, mas compreende-se a necessidade de se ser mais verboso, dado o formato imitado. Solecismos: «É nesta Lisboa que Eça vai fazer a crítica» (melhor «É nesta Lisboa que Eça faz decorrer a história através da qual critica»); o «onde» que vem pouco depois também me parece quase agramatical. Com tanta extensão de texto, é grande mérito não haver outras incorrecções. Duração 3:14.


Francisco Ch.

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Francisco Ch. (16,7) Concepção É um trailer a uns Maias alternativos (de corrente que nem sei designar). Há menção a peripécias da obra (da parte inicial apenas), que são sobretudo aproveitadas para uma exibição extraordinária de efeitos especiais, não isentos de ironia. Há um apurado sentido do género ‘trailer’; há também proficientíssimo domínio das técnicas (excepto das relativas à recolha do som, creio); talvez pudesse haver mais Eça, embora seja criativa a transposição inventada. Expressão oral Leitura do passo inicial dos Maias não foi tão fluente como devia ser. No resto da leitura já o Francisco esteve bem, conseguindo evitar hesitações notórias (de certo modo, o estilo cavo, tétrico, imprimido à voz possibilitou que fosse a um ritmo mais seguro). Texto Tem de se entender por «texto» a própria construção narrativa e o respeito dos requisitos do formato escolhido (trailer, mas trailer a filme de aventuras futuristas [sim, a designação não é esta]). Sendo esse o parâmetro, a «escrita» tem méritos, embora gostasse que houvesse mais algum texto corrido. Não vi nem ouvi incorrecções linguísticas. Duração 2:17.

Sara A. & Sara C.

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Sara C. & Sara A. (17,8-18) Concepção Vai-se alternando entre cartas de Miss Sara (representada e lida por Sara) à irmã e páginas de diário de Maria Eduarda (que não é representada e lida por Maria Eduarda mas por Sara). Este pretexto narrativo criado pelas autoras é muito pertinente, permitindo-nos acompanhar a evolução das relações de Maria e Carlos (da doença de Sara até à instalação na Toca) através de duas perspectivas (que confluem na constatação de que se chegara a um momento irreversível, com a nuance de que a esperta Sara, a inglesa, usa no final um tom quase pressagiador). Toda a planificação havida (na imaginação da trama, sempre em consonância com as balizas do próprio livro) e o cuidado com a encenação são pontos fortes do filme. Expressão oral A leitura de Sara C., é sempre bastante boa (ou muito boa), não se notando falhas (no final, há talvez «pontuação» a mais — por exemplo: «peço / que»); a leitura de Sara A. não foi tão boa, podendo apontar-se-lhe algumas ligeiras hesitações («quando o vi / do meu coupé»; «que o outro tanto apreciava» — pausa tem de ser depois de «outro»; «pois foi-me / difícil»; «a / ambientar-me», com assimilação, pareceu-me). Porém, dada a extensão da leitura em voz alta, estas falhas são compreensíveis. Texto Como já disse, o esquema narrativo foi inteligentemente concebido (e isso é escrita também). A redacção é fluente, quase não apresenta erros, embora, aqui e ali, haja ténue concessão a um registo normalizado (pela nossa linguagem corrente). Mas os meus únicos reparos concretos são estes: «após me auscultar» não soa tão bem como «depois de me auscultar» ou «após auscultar-me»; «nunca foi do meu agrado as visitas desse senhor» não é aceitável (terá de ser «Nunca foram do [...]). Por vezes, haverá abuso da possessivos («minha senhora para escrever a minha receita»; «seis corações [...] seus olhares») e de diminutivos (o que, porém, pode dever-se a quererem com esses tiques de linguagem caracterizar as personagens). Duração 5:19.

Sara M. & Mariana

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Mariana & Sara M. (16,8) Concepção Recuperando uma tradição dos compêndios antigos (o formato dialogal, que aliás já fora usado pelas outras Saras no publifilme; e, que, pensando bem, tem alguma coisa de «Cuidado com a Língua!» entre Diogo Infante e a locutora que lhe vai respondendo), explica-se um assunto — Os Maias — por pergunta-resposta. Sara faz o papel da aluna curiosa; Mariana faz de mestra. Como convém, o tom da primeira é ingénuo; o da segunda, seguro. Expressão oral A leitura é boa. Por vezes, as autoras aproximam-se já da representação (nos momentos de interacção, a mimarem o par aluna-mestra), e também aí vão bem. As partes lidas por Mariana são mais extensas, o que foi estratégia eficaz (a sua leitura, mesmo de partes difíceis, é bastante boa); por outro lado, as partes mais breves e mais expressivas (a fingir dúvida e grande curiosidade) couberam a Sara, que mostra facilidade nessas deixas quase teatrais (ao contrário, Mariana, ao tentar «representar» um alongamento, para dar o turno à colega — «este livro...» —, mostrou-se desastrada). Antes de «centrando-se depois», Mariana teve hesitação, bem comoantes de «uma bela mulher»; Sara fez pausa indevida antes «da história» e, a certa altura, ri-se, sem que isso estivesse decerto programado. Texto Há um certo apego ao enredo, o que condiciona o texto (e o leva, em parte, a repetir o que estará em todos os manuais); no entanto, esse óbice é atenuado pelo diálogo; também a parte final escapa à prevalência da intriga. Como começa a acontecer nos escritos da vossa geração, há determinantes possessivos de que se poderia prescindir («seu marido», «seu filho», «seu filho»). «Eles descobrem» devia ser «Descobrem-no». Duração 3:24.

Jorge

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Jorge (17,7) Concepção Parodia-se um programa televisivo de cultura (o nome foi bem escolhido: «Literaturas Lusitanas»). Este programa implica curtos momentos de representação (Jorge na imagem, primeiro como Afonso, depois como deponente, Amílcar; Pedro, como jornalista, que só ouvimos.) Segue-se o miolho do filme, em que já há leitura (a câmara fica focada no livro, aliás no tomo errado). O texto é criado pelo próprio autor e é um pastiche (ou um pastiche-paródia) de Os Maias. Esta situação é engenhosa, mostra gosto na criação de esquemas narrativos. Boa planificação de tudo (mas parece-me que mais um minuto de filme era útil). Expressão oral As partes de representação estão bem; a leitura também está boa ou muito boa (uma ou duas ligeiras pausas mal postas; mas sempre se pode dizer que a personagem Amílcar falava, não estava propriamente a ler e, portanto, tinha direito a hesitar). Texto Já gabei o que tem que ver com a estrutura e o pretexto encontrado. Quanto ao texto do depoimento de Amílcar, a nova narrativa, é uma boa intriga. No entanto, do Jorge, esperava ainda maior criatividade — além do enredo mais esquemático, faltam peripécias laterais, através das quais teria sido possível tornar mais risível a segunda parte do romance agora descoberta. O texto, pela densidade (pela falta de elementos acessórios), perde verosimilhança. Dois lapsos: teria de ser «perto da Vila Balzac» (e não de «Vila Balzac», como se se tratasse do nome de uma localidade); Afonso começa por se dirigir aos espectadores, mas depois diz «tenho uma notícia para lhe dar» (teria de ser «lhes»). Duração 1:57.

Cláudia & Joana R.

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Joana R. & Cláudia (15) Concepção Este egafone — é o nome que dou a gravação só com som —, numa primeira parte, apresenta uma descrição condensada (feita pelas autoras, creio, mas a partir de frases semelhantes nos Maias) das corridas como aconteceram no romance. Numa segunda parte, mais breve (e, como digo à frente, acho que se deviam ter demorado mais nela), faz-se o contraste com a situação actual. Expressão oral A leitura é bastante boa, mas podia ser ligeirissimamente menos apressada (reporto-me sobretudo a Joana, que, no entanto, conseguiu boa expressividade e fluência; quanto a Cláudia, teve talvez velocidade mais adequada, mas, em compensação, pareceu-me demasiado guiada pelo escrito, respeitadora da pontuação). Texto O género aproxima-se do da crónica (podia ser muito bem uma crónica radiofónica, provavelmente, nesse caso, anunciando-se mais que se ia fazer um «antes» e «depois», em vez da simples justaposição dos tempos). Não havendo falhas de sintaxe, sendo o texto sempre correcto, acho que, ainda assim, se desperdiçaram algumas virtualidades desta oposição (corridas no XIX / hoje). Talvez se conseguisse ir mais longe nesta sociologia se se tivesse apresentado o preciso equivalente em relato (o que corresponderá hoje às corridas?), como fizeram para o século XIX, cabendo ao ouvinte inferir as correspondências. Era, é claro, preciso mais tempo (e aliás acho que convinha terem chegado mais perto do tempo limite). Duração 1:52.

Francisco D.

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Francisco D. Concepção (14,8) É uma introdução-resumo da obra. Lembro-me de ter desaconselhado este formato. A abordagem acaba por ser demasiado genérica. Por outro lado, fica-se muito condicionado pelo necessidade de resumir (não sobrando espaço para momentos criativos). Expressão oral Boa leitura, mas, por vezes, lenta (mais pontuada pelo escrito do que devia), o que a torna um pouco monocórdica. Um exemplo de «pontuação a mais» em «Afonso da Maia / nobre / e rico / proprietário». Uma hesitação em «é / dificilmente suportável». Eu diria «inc[ə]stuosa» (e não ««inc[ε]stuosa», com vogal aberta), mas admito que haja as duas pronúncias. Texto O formato adoptado quase obrigava a que o texto fosse uma recolha das informações que correm em qualquer manual sobre Os Maias. (E eu advertira de que não era este o género mais útil!) No romance não se «destacam o realismo, o romantismo e o naturalismo» (são assunto das personagens e do enredo); tal como está a frase, poder-se-ia pensar que se tratava de catalogar a escola de Eça. Tens tendência a usar relativos que não têm o seu antecedente tão perto quanto talvez devessem ter. Dou este exemplo, mas notei outros casos (também com «onde»): «Regressa a Lisboa após a formatura, onde se vai rodear [...]» (posso dizer «a Lisboa, onde», mas, com «formatura» pelo meio, a frase torna-se ambígua). Já agora: não é bem verdade que Carlos, após a formatura, regresse a Lisboa (estivera em Coimbra, em Santa Olávia). Não sei se podemos dizer que o «incesto involuntário por parte dos dois irmãos marca o fim desta obra trágica» (na verdade, como tu próprio salientas, Carlos encontra-se com Maria Eduarda já depois de ter conhecimento do parentesco que havia entre ambos). Duração 4:04.

Bernardo

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Bernardo (15,9) Concepção É um trailer a uns Maias alternativos (que, por sua vez, parodiariam o romance de Eça — ou, como direi, acabam por quase se abstrair do original). Há, portanto, dois géneros em jogo: trailer e paródia. Quanto às características de um trailer, foram bem percebidas (faltando, porém, mais falas ou mais fragmentos de diálogo, que são quase obrigatórios neste género). Na parte de paródia, não chega a haver propriamente uma reformulação, mesmo caricatural, do romance, há antes uma narrativa quase de raiz. (Ora talvez houvesse vantagens em se aproveitar o ponto de partida da brincadeira, Os Maias. Num texto destes, que ridiculariza o original, o conhecimento que os outros tenham do objecto de que se está a troçar potencia o humor que se consiga na reformulação. ) Expressão oral Boa leitura. Não há nada a criticar nestre campo. Embora seja verdade que se trata de texto relativamente fácil de ler, porque entrecortado, também se deve ter em conta que encontrar a devida entoação em trechos tão curtos implica outros tipos de dificuldade. (Não percebo o que é dito depois de «Acaba com uma das mais perigosas [...]».) Texto «Nasce no seio de uma famíla, mas não está disposto a colaborar com os crimes da sua família» merece uns pronomes para evitar tanta «família» («Nasce no seio de uma famíla com cujos crimes não está disposto a colaborar»). Há uma zona que me parece demasiado rebuscada para uma narração em trailer («Não disposto a colaborar, [...]»; «de nome»). Nas legendas, noto dois problemas: «Justiceiro» está com «ç» cedilhado. «Os Maias» devia vir em itálico (e sem aspas): é o título de um livro. Duração 1:24.

Miguel S. & José

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José & Miguel S. (15, 9) Concepção Boa ideia, embora (aviso já) me pareça ter havido alguns escolhos na sua concretização. Tratava-se de fazer transposição para o nosso século de um serão do Ramalhete. Essa transposição faz que as personagens estejam igualmente a jogar cartas (decerto não já uíste — ou whist) e a discutir temas de actualidade. Distinguem-se duas personagens-tipo: o conservador e o crítico, que seriam produtos da educação que lhes foi ministrada (óbvia alusão às teses educativas nos Maias). O formato é o de peça de teatro, criada pelos autores. Expressão oral A tarefa não era fácil (representação durante bastante tempo, com réplicas constantes, em torno de mesa — fixados pela câmara, portanto). Haveria talvez que optar por uma de três formas (representação de texto previamente decorado; leitura disfarçada com o episódio muito montado, como se fará numa telenovela; ou um quase improviso). A estratégia que escolheram foi, salvo erro meu, a de representar (com leitura pontual de cábulas, escondidas nas cartas, creio). Ora essa conjugação, por vezes, funciona mal. O momento em que pretendem consultar o texto acaba por trair mais do que ajuda. De qualquer modo, há momentos de certa fluência da representação, em geral à medida que se avança na cena. Texto Não há grandes reparos a fazer a aspectos linguísticos, até porque a aferição de um texto em conversa tem de ter em conta a gramática própria do oral conversacional (que consente uma série de ‘desvios’ não aceitáveis na escrita). Além disso, o texto (que estaria fixado em papel), mesmo segundo critérios do escrito, não apresnta incorrecções. Julgo que teriam tido vantagem em preferir temas menos banalizados, mais específicos. Antes de apostos, tem de haver vírgula: «Zé, o conservador», «Miguel, o crítico»; em vez de «com personagens do tipo dos Maias», «com personagens do tipo das dos Maias». Duração 4:57.

Inês & Joana O.

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Joana O. & Inês (18,9) Concepção Foi criada, e depois representada, a cena de um encontro post-mortem entre a Condessa de Gouvarinho e Maria Eduarda. As autoras aproveitaram para assim caracterizar, pelas suas falas (indirectamente, portanto, já que pela acção), estas personagens, revelando bom conhecimento de Os Maias (certo descaramento da condesssa, alguma hipocrisia, «sonsice», de Maria Eduarda, que, na verdade, não fica explícita no romance). Expressão oral É a representação que será aferida: pareceu-me muito boa, da parte de ambas, só ligeirissimamente apressada aqui e ali. E, por várias razões, nem era texto fácil (necessidade de réplicas, relativa sofisticação da linguagem, matizes emocionais variados, reacções repentinas). Texto Já referi a conformidade com a obra; acrescente-se que, depois, a situação é parodiada com inteligência (brinca-se com os filhos havidos; com as traições de Carlos; com os ciúmes). A redacção é muito boa (linguagem adequada: registo, cuidado, não deixa de ser representável, sem constrangimentos insuperáveis para os actores; consegue-se tom leve, humorístico, sem perder as referências da obra). Não notei erros (escusado um «chateada», descabido numa personagem oitocentista). Evitaria a repetição «encontros»/«encontro» logo na «didascália» inicial (aproveito para perguntar se não há, nessa locução introdutória, e em outro off mais à frente, uma distracção das encenadoras/autoras: em teatro, o normal seria que o espectador viesse a perceber o contexto sem que ele nos fosse anunciado). Também reduziria o uso de «deixe-me que lhe diga» («deixe que lhe diga» é preferível), que acaba por funcionar como bordão para as maledicências das duas personagens. Duração 4:14.

Carla

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Carla (14,8) Concepção É um trailer para a uma adaptação de Os Maias. Quase todos os ingredientes deste género/formato são usados (excepções: trechos de cenas; música), e de modo pertinente. Ficou um egafilme limpo e bem acabado, mas que, sem muitas dificuldades suplementares, podia ter mais elementos de «risco» (exemplos: ter-se optado por uma sequela, em vez da adaptação ao original; por uma adaptação mas com linha de intriga antónima; por uma actualização, reportando tudo ao nosso século). Mas este primeiro resultado está, como disse, escorreito. Expressão oral Boa leitura, em que não encontrei falhas, embora tenhamos de reconhecer que o texto a ler não punha demasiadas dificuldades. Em «Mas / o que irá acontecer quando se reencontrarem» há pausa exagerada a seguir ao «mas» (e na escrita, claro, não haveria vírgula). Texto Não há incorrecções linguísticas, mas farei uns reparos a aspectos informativos: talvez não se deva associar «uma casa em Lisboa», o Ramalhete, a «três gerações» de Maias (o Ramalhete será o espaço de Carlos, e, mas menos, de Afonso; Pedro nada teve que ver com esta casa); por outro lado, uma das imagens retiradas da série brasileira mostra-nos, salvo erro, a personagem D. Patrocínio (0:36), que é uma figura de A Relíquia (portanto, incorporada na telenovela por empréstimo de outra obra de Eça); é a tia de Teodorico, o Raposão, não devia aparecer num trailer de Os Maias. «Será que irão saber que estão unidos pelo sangue?» é correcto mas não soa tão bem como «Será que vão saber […]?» Duração 1:03.

Pedro S.

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Pedro S. (17,8) Concepção Anuncia-se uma «versão modificada, comprimida e actualizada» de Os Maias. Na verdade, o formato escolhido pertence à linhagem dos sketches de humor. Filmes com alguma relação com este género/formato são o egafilme de Rui, Tiago & Gonçalo (11. 1.ª) e o publifilme de Ricardo (11.º 2.ª), mas nestes dois casos assumia-se a ironia relativamente ao próprio acto de fazer o filme (a brincadeira estava na desconstrução); quanto ao egafilme de Tiago (11.º 5.ª) e ao publifilme de João C. & Zé (11.º 6.ª), apostavam mais num cómico ancorado na intriga, ao passo que o de Pedro associa o insólito das transformações (saídas do novo contexto) à brincadeira de base linguística e a uma série de recursos que implicam a filmagem/montagem (neste aspecto, veja-se o egafilme de Augusto & João Garrido). Como tantas vezes acontece na sua escrita, o autor maneja muito bem a caricatura, a alusão irónica. Novidade são os aspectos mais histriónicos ou «cinematográficos» (caracterizações, gritos, desfasamento e aceleração de vozes, representação, música…), em que tudo ficou também bem concretizado. Hesito quanto ao último slide: é um momento de relativa facilidade (ainda que sirva bem enquanto ponto culminante na situação humorística). Expressão oral Muito boas as partes representadas; também sempre bem nos trechos lidos em off. Em «mulheres com quem ’tive» devia ser «estive» (mas também se pode dizer que se pretendia imitar mesmo a pronúncia actual). Texto Já falei da capacidade de planificar as situações cómicas e da sensibilidade linguística que permite ao autor escrever de modo satírico mas com leveza e inteligência. Duração 1:54.

Marta

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Marta (16,5) Concepção Simula-se um programa de rádio, em torno de leituras, «Falando de livros». Consegue dar-se bem o ritmo e a linguagem deste género radiofónico (enfim, falta a música a pontuar início e fim; a extensão também seria talvez maior, mas isso romperia um constrangimento da própria tarefa). Expressão oral Temos de distinguir as leituras de Mafalda (excelentíssima; mas que não será aqui avaliada) e de Marta. Na verdade, mais do que leitura, trata-se, em ambos os casos, de representação, cumprindo mesmo as hesitações de quem respondesse sem ter guião ou a fluência do jornalista (note-se que, habitualmente, os locutores já representam quando entrevistam: é sempre uma oralidade falsamente espontânea, resultado de o texto estar [bastante] escrito e o jornalista ter de fingir que se trata de conversa quase informal). Marta conseguiu fazer muito bem o papel de quem responde. O discurso só soa um tanto artificial quando é demasiado ensaístico (a parte das figuras de estilo e do discurso indirecto livre, por exemplo), mas, nesse ponto, o problema está mais na redacção do que na performance oral (e, por outro lado, como se assume que a personagem entrevistada por Sónia Almeida é mesmo a própria Marta, estudante da ESJGF, não é inverosímil que inclua na sua resposta trechos mais escolares). Texto Já fiz o reparo à parte que parece muito debitada a partir de apontamentos escolares. Quanto ao resto, é sempre texto (o dito por Mafalda e o dito por Marta) absolutamente correcto e segundo o género textual ‘entrevista radiofónica’. Tiraria apenas vários dos determinantes possessivos («seus», «suas», ...) que estão em número exagerado, mesmo para o discurso oral. Na parte introdutória, ainda a cargo de Mafalda, há um sintagma a que falta a preposição «o livro [de] que vamos falar». Duração 2:48.

Carlota & Alexis

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Alexis & Carlota (17,5) Concepção Anuncia-se um final alternativo. Na verdade, houve que operar mais transformações (há mudança de época [actual]; de perfis de personagens [a ambiguidade de género de Carlos e de Maria Eduarda]). Quanto ao formato, escolheu-se a representação, num registo de sketch humorístico mas com momentos de representação quase de drama sério (portanto, reunindo-se duas dificuldades da representação: a estilização caricatural típica dos sketches — e fizeram bem em não querer ser demasiado humoristícos «explicitamente» — e também as exigências da representação naturalista). Há ainda um terceiro momento, que, se me permitem, é quase um cruzamento com a biografia dos autores, quando ambos correm entre prédios e com a música «que é bonita, sim», no penúltimo dias de aulas de 2009. Expressão oral Muito boa representação e dicção. É claro que se descobrem ligeiras hesitações (em geral, resolvidas com a repetição do sintagma anterior, a dar tempo à recordação do texto a dizer), mas é até na solução desses momentos que se vê a facilidade que têm ambos para a representação. No caso de Carlota essas soluções de recurso nem sequer quase se tornam necessárias (só em «lá estava ele»). Texto Bem escrito: consegue-se até momentos de leve ironia, nunca falhados, o que já é tão difícil. Duração 4:19.

Catarina F.

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Catarina F. (16,6) Concepção É um «egafone» com a carta que, em 17-10-1887 — dez anos depois, portanto —, Maria Eduarda, no mesmo dia do seu casamento com outro — a galdéria! —, teria escrito a Carlos. Expressão oral Muito boa leitura. Texto Redacção sem falhas, embora, aqui e ali, sobretudo lá para o final, se socorra um pouco dos lugares comuns do discurso amoroso. A expressão da paixão por Carlos é alcançada; talvez faltem outros matizes psicológicos que não sejam o da pura declaração de amor perene (exemplos: os remorsos pela traição ao próximo marido; a má-consciência pela relação com um irmão; a nostalgia da juventude; o medo de que o amado já não lhe corresponda). «Das saudades que sente tuas» ficaria melhor assim: «Das saudades que sente de ti». Duração 2:30.

Catarina T.

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