Sunday, September 14, 2008

Seis

Seguem-se os Egafilmes (microfilmes relativos aos Maias ou aos amores de Pedro e Inês) do 11.º 6.ª. Para já, os de Filipa & Raquel, Vanessa, Mónica & Júlia [11.º 5.ª], Catarina & Tomás, Joana C. & Inês, Cátia, Joana O., Vranda.


Raquel & Filipa

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Filipa & Raquel (18,2) Concepção Cria-se um telejornal, que inclui uma reportagem-documentário, aproveitando-se intriga e temas de Os Maias (dos capítulos iniciais, no caso). Música, tratamento das imagens, ritmo da entrada em cena das personagens, turnos das falas, mimam bem este último género, que não é bem de ligação ao exterior num telejornal (é mais o de peça alargada que pode fechar um telejornal, ou mesmo o género ‘documentário’). Também o momento da notícia no telejornal é verosímil (certo deslizar da câmara é o único aspecto que compromete o pastiche), incluindo a publicidade que o antecede. A parte do filme no exterior implicou excelente trabalho de direcção de actores (parabéns ao Gonçalo, ao Tomás e à Inês, mas, é claro, também às encenadoras). Expressão oral Não notei falhas nas várias leituras em voz alta (a de Raquel é muito boa, mas a de Filipa é igualmente pelo menos melhor do que a de quem está a imitar — o que, diga-se, não é particularmente difícil —, havendo só umas duas ou três palavras lidas com excessiva rapidez, o que levou a síncopes à «lisboeta»). Texto Tanto o género 'notícia' como o da 'reportagem-documentário' estão bem interiorizados. Como o registo (nas perguntas ou nas explicações introdutórias) é formal, nota-se logo a mínima quebra da gramaticalidade, qualquer desvio ao registo muito cuidado que se adoptou. Ora não me soa bem «ao olharmos sobre a infância», embora seja decerto aceitável (parece-me melhor: «ao olharmos para», «ao analisarmos a»); em de «a sua educação tem uma fiel crença», proporia «a sua educação foi fundada na crença de que...» ou «o tipo de educação que lhe dada é fiel à crença de que»; «dois tipos de educação presentes em Portugal» também não é famoso («existentes»). Em «quer que eu seja um cavalheiro e não fazer [por «e não faça»], Tomás evita o Conjuntivo, o que é esperável na sua idade. Nos dizeres de slides, surge «Eusebiozinho» com acento (ora «Eusébio» tem acento, mas o diminutivo já não pode ter). Duração 5:15.

Vanessa

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Vanessa (15,5) Concepção Criam-se trechos (uma página) de um suposto diário de Maria Monforte. Expressão oral É talvez o ponto mais forte do egafilme: a leitura em voz alta é irrepreensível, dando-nos o texto com correcção e tornando-o até bastante verdadeiro (não sentimos como artificial o discurso, quando os diários nem são muito para serem lidos em voz alta); apesar de a redacção ser talvez demasiado retrospectiva, ouvimos Maria Monforte «a pensar». Texto O que acabei de dizer liga-se a um aspecto que acho menos conseguido. Uma página de diário, em geral, é mais introspectiva do que narrativa; a vantagem de termos o diário da Monforte era sobretudo a de acompanhar o seu pensamento. Ora, em alguns momentos, a narrativa de factos sobrepõe-se ao tom monologal, reflexivo, hesitante, que esperamos num diário. Procuraria evitar as partes em que, na prática, a não ser pelo uso da 1.ª pessoa, o texto não se distingue muito do que caberia a um narrador neutro. Valorizaria o «discurso interior» de Maria. Em termos de correcção linguística, não tenho muitos reparos a fazer. Notei um pretérito perfeito («a dizer que deixei») que tinha de ser mais-que-perfeito («a dizer que deixara»); suprimiria alguns determinantes possessivos («nosso [filho]», «seu [pai]», «minha [filha]»); prefiro «posso dizer que me apaixonei por ele» a «posso dizer que apaixonei-me por ele». Duração 1:50.

Mónica & Júlia [11.º 5.ª]

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Júlia [11.º 5.ª] & Mónica (16,9) Concepção O filme tem duas partes claramente distintas. Na primeira, mais convencional, faz-se uma súmula do enredo dos Maias, sobretudo dos capítulos iniciais. (Há leitura em voz alta, fotografias — preferia que tivessem evitado as da telenovela —, o texto é estandardizado.) Na segunda parte, mais criativa, há representação, por parte das autoras, que transpuseram a intriga para a nossa época e fingem uma conversa de vizinhas. Já se percebeu que gosto mais desta parte, mas percebo que a narração que a precede é útil para enquadrar a cena da intriguice acerca desse casal de manos perversos. Diga-se também que mostram bastante arte a construir as condições narrativas para o surgimento da segunda parte (conseguem fazê-lo em pouco tempo, suspendendo a história a dada altura). Expressão oral Quase sempre boas, as leituras em voz alta e a representação. Um exemplo de pontuação do escrito que não teria de ser lida: a vírgula a seguir a «porém» (Júlia). Quando Mónica lê «acabara por se casar, mais tarde [...]», não seria antes «acabará por se casar, mais tarde [...]»? Na representação, há apenas uma pausa «falsa», entre «vizinha» e «da frente» (Mónica). Texto Teria havido vantagem em investir menos na parte introdutória (ou, se calhar, investir mais, tornando-a porém mais curta e original) e conceder tempo à parte representada (creio que aqui, com facilidade, teriam encontrado mais maledicências em torno dos dois Eduardos — Carlos e Maria). Reparos localizados: «doida e, até, excessiva» soa-me mal; quase que era melhor «excessiva e, até, doida»; por outro lado, como acontece tanto na escrita da vossa geração, há excesso de determinantes possessivos (revejam quantos «seus» eram prescindíveis); em vez de «família da Maia», «família Maia» ou «dos Maias»; em vez de «abandonar Pedro com um dos seus filhos, Carlos», «abandonar Pedro e um dos filhos, Carlos» ou «dexando-o com um dos filhos». (Notem também que Sintra, ao contrário do que se podia retirar das imagens que exibem antes da cena representada, não é local crucial no caso dos encontros Carlos-Maria — sê-lo-ão a Toca e a Rua de S. Francisco.) Duração 3:16.

Catarina & Tomás

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Tomás & Catarina (16,5) Concepção Os amores de Pedro e Inês são conformados ao nosso século e ao género ‘telenovela’. O início é um pastiche aos genéricos das telenovelas; o próprio título («Amor proibido») também vai no mesmo sentido. O filme é muito eficiente a organizar a narrativa (há noção de como as cenas se podem suceder; a escolha dos planos, a montagem revelam bons conhecimentos — ou intuição — de como se conta uma história em cinema/televisão. Expressão oral Também o desempenho de todos os actores (ambos os autores e os convidados) é proficiente, revelando muito à-vontade. A representação é natural e as falas não nos parecem artificiais — apesar do insólito de algumas soluções (tipo de refeição, bebé, as cenas finais), que aliás, quanto a mim, não resultam completamente. Texto Considero que há certo desperdício das oportunidades para incluir partes mais elaboradas. (Sim, é verdade que nas telenovelas é assim, também aí se evitam momentos de densidade, de complexidade, em termos de linguagem.) Não significa que devessem usar registo deslocado do século XXI, mas podiam engendrar momentos mais sofisticados, até em termos da psicologia das personagens. (Digamos que o comportamento das personagens se mantém tão prototípico como o da Inês, Pedro, Constança, Afonso medievais; ora, provavelmente, a mesma teia de relações implicaria no século XXI, estados de espírito «redondos», menos óbvios.) Nos dizeres escritos há correcções a fazer (para além dos acentos, que calculo não haja por questões do programa que usaram e portanto lhes desculpo): em vez de «Pedro e Constança eram um jovem casal recém-casados», devia ser «Pedro e Constança eram um jovem casal; recém-casados, ...» ou «jovens e recém-casados, Pedro e Constança» («casal recém-casados» não é aceitável); devia haver vírgula a seguir a «no entanto», tal como antes de «até que», que introduz oração subordinada. Duração 6:46.

Inês & Joana C.

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Joana C. & Inês (17,5) Concepção Imita-se um programa cultural televisivo, designado «Câmara Clara» (embora não creia que haja vontade de, especificamente, caricaturar o programa de Paula Moura Pinheiro). A entrevista é pretexto para se exporem ideias importantes acerca de Os Maias (e efectivamente abordadas em aula; não se trata de noções lidas de uma sebenta, à pressa). Expressão oral O texto a dizer foi decorado (ou, no início, também lido, sem que nos apercebamos?) mas houve, mais do que a simples memorização, representação. Essa representação saiu muito bem. Como se mima uma situação, a de entrevista, que já seria, no original, bastante representada, mesmo as hesitações que possam surgir são verosímeis (inesperado seria que um intelectual, ao ser entrevistado, debitasse um texto sem falhas). Joana foi muito natural nesse papel (o de, de vez em quando, hesitar um pouco, mas de modo natural, como aconteceria numa depoimento verdadeiro). Inês, como competia à jornalista, foi mais irrepreensivelmente fluente. Uma das ajudas de Clara Carvalho a Eduarda Vasconcelos (será este nome um cruzamento dos dois mais melosos pedopsiquiatras convidados das televisões, Eduardo Sá e Ana Vasconcelos?), «com base [nas inglesas]», pareceu-me precipitada (era implausível que a jornalista se antecipasse à frase que a académica ia concluir). Só o cenário traiu um pouco a verosimilhança da entrevista (mas pode alegar-se que seria um daqueles episódios destas séries realizados num exterior para celebrar alguma efeméride, talvez a inauguração da sala anti-stress da ESJGF); um slide que, a certa altura, divide a entrevista também é forçado. Texto O texto não podia ser tão rico ou certinho do ponto de vista da sintaxe escrita, como teria de ser um outro que se destinasse à simples leitura em voz alta; fizeram bem em seguir a gramática e léxico convenientes a um texto oral, ainda que com razoável formalidade. Reparos: «tentam almejar uma felicidade» não me soa bem (mas admito que seja sobretudo pela brincadeira dos Gato Fedorento em torno deste verbo); pelo menos, no final, não pode ser «acabam por não almejar nada» (talvez: «acabam por nada alcançar», «concretizar», conseguir», «levar a cabo»). No slide que dá nome ao programa, as aspas deviam colar-se às palavras (sem espaços) ou, melhor ainda, podiam ser suprimidas (os títulos só quando os citamos é que levam aspas; na capa de um livro, na placa de uma rua, virá o nome apenas). Duração 4:14.

Cátia

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Cátia (15,5) Concepção Faz-se contraste entre caracterização dos três Maias e Maria Eduarda (quatro Maias, afinal) nos Maias e, prospectivamente, como seriam hoje. O primeiro termo deste contraste vive das próprias caracterizações na obra (ainda que sintetizadas pela autora), a segunda metade é exercício mais especulativo. Não se procura que haja articulação entre imagens e discurso. Expressão oral Bastante boa a leitura. Dois erros só, ao pronunciar «diletantismo» (soou *dilatantismo) e «resplandeciam» (*resplandesciam). Texto Não encontrei erros de escrita. O texto não resolve completamente uma dificuldade do próprio tipo textual: como fazer caracterizações, sem se cair em séries de adjectivos (que, ainda por cima, são já «lugares comuns» destes retratos)? Talvez tivesse defendido que a caracterização se socorresse de processos indirectos (pela fala, pelas acções, pela aparência, por objectos que pertencessem à personagem é que teríamos a sua caracterização; em parte, Cátia chega a fazer isso quando escreve, por exemplo, que «[Afonso] comentaria assuntos de futebol com quem passasse»). Aliás a caracterização indirecta seria mais eciana do que a directa. Já na segunda parte, em vez de «empenhado em tudo que lhe dava prazer», poria «empenhada em tudo que lhe desse prazer»; em vez de «que resplandeciam», poria «que resplandeceriam». Duração 3:26.

Joana O.

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Joana (14,5) Concepção Em pastiche de programa de televisão (de consultadoria? de cultura?), faz-se defesa das qualidades, sobretudo físicas, de Carlos da Maia (que, note-se, não foram engendradas pelas séries televisivas, estão no romance), contrastando-as com os «neandertais» do século XXI. O projecto acaba por ficar incompleto, quanto a mim, por se passar rapidamente à fase de apelo (que depois tem de ser repetido), quando haveria que desenvolver mais a comparação dos perfis de «heróis» do XIX e do XXI. (Faltou talvez cerca de um minuto de texto antes da fase mais caricatural.) Expressão oral Ainda se mantém uma certa indecisão entre ler, decorar um texto, improvisá-lo. É-me difícil classificar a expressão oral, porque nem sempre adivinho se o texto estava inscrito em papel e foi decorado, ou se foi mais ou menos espontâneo. Não é a primeira vez que ideias da Joana que até são interessantes são prejudicadas por precipitação na fase de as pôr em prática. Planificar mais sensatamente é um conselho que deixo. Também os prazos para estas tarefas devem, futuramente, ser mais cumpridos. Texto Embora este texto esteja já mais elaborado do que o do publifilme, continua a esquecer-se que o discurso oral de um programa de televisão é, muitas vezes, intermediado por guião escrito que os jornalistas seguem rigorosamente. (Fica-me a dúvida sobre se, neste filme, o texto estava todo previsto e, na fase da execução, foi aqui e ali esquecido ou se estava apenas esboçado.) Para se comparar Carlos com um deus, em vez de «uma versão masculina de Afrodite», proponho «um Apolo». Em vez de «peço-vos», seria, em rigor, «peço-lhes» (o tratamento é na 3.ª pessoa). Em vez de «muitas de nós já excluímos», seria «muitas de nós já excluíram». Duração 2:03

Vranda

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Vranda (14) Concepção A ideia (boa!) era pôr em paralelo amores de Inês/Pedro e de Carlos/Maria Eduarda. Quanto a mim, esse contraste é um tanto desperdiçado, porque se recorre sobretudo ao resumo das intrigas. Falta algum processo (comentário? articulação entre sequências ou personagens directamente?) que pusesse mais em evidência os antagonismos e semelhanças que há nos dois enredos. Expressão oral Demasiada rapidez na leitura (como se faltassem imagens para o texto a ler e por isso se tivesse de ler à pressa), embora sem erros claros de entoação ou de pronúncia. Correcção: «desenca[n]deando». Texto Teria preferido um texto menos guiado pela simples história, relato do enredo. Uma correcção: não é pela Corneta do Diabo que Carlos percebe ser a relação com Maria Eduarda incestuosa. Evitaria um «conhecem-se», quando, logo a seguir, há um «desconhecendo». Duração 1:59