Friday, September 11, 2009

Ibisfilmes 12.º 1.ª

Seguem-se os microfilmes em torno de poemas de Pessoa, por alunos da turma 12.º 1.ª. As instruções para estes ibisfilmes estão aqui. O conjunto de poemas tratados está aqui.
Por razões de logística (ter à mão certos livros, e outros não, por exemplo), não cumpro a exacta ordem de chegada dos filmes (que me desculpem se houver alguém dos primeiros a entregarem que não seja de imediato contemplado com comentário).
[Links para filmes dos anos anteriores: Melhores bibliofilmes; Melhores publifilmes; Melhores egafilmes; Melhores microfilmes autobiográficos. Bibliofilmes: 10.º 1.ª; 10.º 2.ª; 10.ª 4.ª; 10.º 5.ª; 10.º 6.ª; Egafilmes: 11.º 1.ª; 11.º 2.ª; 11.ª 4.ª; 11.ª 5.ª; 11.º 6.ª; Publifilmes: 11.º 1.ª; 11.º 2.ª; 11.º 4.ª; 11.º 5.ª; 11.º 6.ª; Microfilmes autobiográficos: 10.º 1.ª; 10.º 2.ª; 10.º 4.ª; 10.º 5.ª; 10.º 6.ª.]


Joana G.

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«Dizes-me: tu és mais alguma coisa» (Alberto Caeiro)
http://arquivopessoa.net/textos/3358
Joana G. (17,4) Expressão oral Conseguiu-se o tom de quem está naturalmente a pensar em voz alta, com a ingenuidade que atribuímos a Caeiro, que tenho notado faltar a muitas das leituras de poemas do heterónimo mestre dos outros. Creio que um dos segredos desta boa leitura foi a Joana não estar simplesmente a seguir as palavras (gramaticalmente) mas estar concentrada também no sentido do texto. Além desta vantagem em termos da expressividade conseguida, também não houve nenhuma falha na parte puramente gramatical (entoação em função da pontuação, pronúncias de palavras, etc.). Concepção Enquanto decorre a leitura do poema, vai passando um desenho animado, cujo contexto é facilmente conotável com Caeiro (girassóis, casa tradicional, infantilidade, em geral). (A proveniência deste filme de animação deveria ter sido ser indicada nas legendas finais.) Embora compreenda a ideia do ponto de interrogação que surge no final, diria que tem um efeito atenuador do último verso do poema («E não digo mais nada. Que mais há a dizer?»). A tradução gráfica acaba por retirar força à pergunta de Caeiro. (E é um elemento dissonante do resto da estrutura do filme.) Pessoa Autógrafos:
http://purl.pt/1000/1/alberto-caeiro/obras/bn-acpc-e-e3/bn-acpc-e-e3_item62/P1.html; http://purl.pt/1000/1/alberto-caeiro/obras/bn-acpc-e-e3/bn-acpc-e-e3_item62/P2.html Duração 1:31


Micaela

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«Bem sei que tudo é natural» (Álvaro de Campos)
http://arquivopessoa.net/textos/3453
Micaela (16,6) Expressão oral Atribuo sempre aos poemas de Campos uma certa sofreguidão, uma instabilidade emocional, uma ânsia de tudo abarcar e explicitar, que, quanto a mim, implicaria velocidade de leitura (e, sobretudo, mudanças no ritmo-base). Segundo o que acabo de dizer, a leitura da Micaela seria talvez excessivamente pausada (mas é discutível se a minha interpretação do estilo adequado a Campos é mesmo o que intuo seja). Não encontrei falhas concretas na leitura (seja na entoação ou na pronúncia), a não ser no verso «Mas deixou o com que pagar contas» («o» não se liga a «deixou», já que não é pronome, mas o determinante que inicia o objecto directo: ‘deixou o quê? o com que pagar contas’). Porém, como disse atrás, defenderia uma leitura de maior risco (por exemplo, na parte em que alternam as partes, entre parênteses, com observações falsamente piedosas sobre o bebé e as frases burocráticas com sabor irónico, impunha-se um ritmo vivo, mesmo a imitação de duas vozes talvez.) Concepção Inicialmente, o minimalismo das imagens parecia funcionar (de certo modo, interagia com o texto do poema, obrigando-nos a pensar nas interpretações que deveríamos inferir); no entanto, o dispositivo esgota-se a partir do momento em que também o ouvinte já fez as conjecturas que lhe ocorriam. Haveria que encontrar aí outra solução. Ao contrário, as imagens fixas que aparecem aqui e ali são óbvias, de descodificação directa, o que, revelando compreensão do texto (e intenção crítica), acaba por menorizar o poema de Campos (como na observação que fiz a um ponto de interrogação da Joana G.: os equivalentes gráficos do que os poemas permitem ao leitor inferir prejudicam o texto mais do que o apoiam). Escrita A indicação bibliográfica (discográfica, aliás) da música seria: ‘The Beatles, «Money (That's What I Want)», With The Beatles, 1963’. Pessoa Na edição de Cleonice Berardinelli, a estrofe que vai de «Com isso se forrou a papel uma casa» até «(É pena sim mas há sempre um alívio.)» é a que fecha o poema. Este poema de Campos, embora não se ocupando da guerra, tem semelhanças com poemas do ortónimo sobre morte e crianças (veja-se «O Menino da sua mãe» (ver no nosso manual, p. 171, ou
http://arquivopessoa.net/textos/2052) e «Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento» http://arquivopessoa.net/textos/1837 Duração 3:41


Eliana

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«Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras» (Álvaro de Campos)
http://arquivopessoa.net/textos/1012
Eliana (16,8) Expressão oral Gramaticalmente, a leitura em voz alta está próxima da perfeição (o que não era nada fácil, dado que o poema é extenso, e tem a pontuação caprichosa de Campos; notei só «um pulsar» em vez de «que pulsar» [v. 6]). No entanto, faltará certa irregularidade que atribuímos ao estilo de Álvaro de Campos, que implicaria ler menos fluidamente (enfim, era preciso ler «pior» para dar ideia do turbilhão emocional de Campos. A fonética por vezes sai ligeiramente prejudicada pelo uso de aparelho, o que, como é óbvio, não pode ser penalizado. Concepção Enquanto se lê o poema, que alude a Lisboa — embora, quanto a mim, acabe por se centrar mais no próprio poeta —, vão aparecendo imagens da cidade (delimitadas por escultura sobre Pessoa na Brasileira do Chiado e por escultura no largo do São Carlos, onde Pessoa nasceu). A paisagem que se vai vendo tem uma vantagem (mostra-nos sítios afinal biograficamente relevantes) mas não deixa de quase contradizer o poema (é que é difícil ilustrar a sofreguidão de Campos, pelo menos com imagens naturalistas). Pessoa Este poema é um dos que põem problemas de fixação do texto. A versão lida é a da edição de Teresa Rita Lopes. Na edição de Cleonice Berardinelli, o poema termina em «seja» e o restante, a partir de «A mulher que chora baixinho», a segunda metade do texto lido por Eliana, constitui já outro poema (o que é notável no autógrafo e, quanto a mim, também faz mais sentido), estando os versos aí ordenados diferentemente. Duração 2:42.

Carolina

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«Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável» (Alberto Caeiro)
http://arquivopessoa.net/textos/1041
«Não tenho pressa. Pressa de quê?» (Alberto Caeiro)
http://arquivopessoa.net/textos/2583
«Não sei. Falta-me um sentido, um tacto» (Álvaro de Campos, aliás, Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/4355
Carolina (17,3) Expressão oral Muito boa leitura, sem lapsos, a não ser no verso 4 do poema «Não sei. Falta-me um sentido, um tacto», em que se omite «Ou» («Ou qualquer facto?» é o que se lê no texto). Optou-se por uma leitura «não representada», sem se forçar a expressividade, o que se aceita. Porém, diria esperar talvez uma leitura um pouco mais dramatizada, reflectindo o acto de pensar por parte do sujeito poético (pelo menos, nos trechos de Caeiro). A razoável velocidade a que vai a Carolina — que até consititui um elemento suplementar de dificuldade (e é extraordinário que não haja tropeções na difícil sintaxe dos textos) — é talvez excessiva para o registo que seria o de Caeiro. O final, sobretudo, teria de ser mais hesitante, mais coloquial. Concepção Com partes de três poemas criou-se um novo texto (não se detectando os limites entre eles. O texto fica coerente.Entretanto, as imagens, relativamente secundárias quanto ao relevo que têm no filme, vão mostrando desenhos (quase sempre, meras metáforas visuais), filmados como se o espectador fosse percorrendo com o olhar um placard com desenhos soltos. Pessoa O poema «Não sei. Falta-me um sentido, um tacto» foi durante tempo atribuído a Álvaro de Campos (na edição tradicional, a da Ática); no entanto, as últimas edições de Campos já não o incluem, sendo agora o texto parte do corpus do ortónimo (está na edição de João Dionísio, por exemplo). Duração 1:13

Joana L.

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«Não, não é cansaço...» (Álvaro de Campos)
http://arquivopessoa.net/textos/228
Joana L. (19) Concepção A ideia essencial foi incorporar no plano da enunciação (que gira em torno da dificuldade de escolher um dado enunciado) o enunciado que se procurava, sem que isso fique explícito logo: o ouvinte não avisado não se aperceberá de imediato que no discurso de Joana se integrou entretanto o poema de Álvaro de Campos. Quando se chega ao momento em que surge o poema as imagens vão mimando o acto de escrever o próprio texto, agora acompanhado por música (apropriada, por não ser sentida como elemento postiço). Expressão oral É curioso que o indicia ter-se mudado de plano — da enunciação para o enunciado, simplificando bastante — é a naturalidade, a facilidade, da leitura em voz alta de «Não, não é cansaço...». Com efeito, a leitura do poema de Campos é tão adequada que a achamos contrastante com o discurso mais ou menos dramatizado até aí. A representação do que se passa no plano da enunciação é menos espontânea do que a leitura do poema — como se o narrador fosse mais fingidor quando é ele próprio do que quando finge ser outro (e é claro que esta minha frase é Pessoa em segunda mão e sem grande jeito). Não se veja nisto uma crítica às capacidades da autora para exprimir oralmente a reflexão pessoal, porque percebemos que é propositado o estilo auto-irónico, voluntariamente adocicado, dessa primeira parte. E até convém que o tal contraste seja evidente, para assim se poder, em crescendo, dar o relevo devido ao poema do Campos intimista, que, por isso mesmo, resulta simultaneamente espontâneo e grave. Falta dizer que a leitura também está muito correcta em termos, por assim dizer, puramente gramaticais (pontuação, pronúncia, etc.). Duração 3:15.

Raquel & Soraia

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«Deito-me ao comprido na erva» (Alberto Caeiro)
http://arquivopessoa.net/textos/379
«Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir» (Álvaro de Campos)
http://arquivopessoa.net/textos/2854
Raquel & Soraia (18) Expressão oral Temos de distinguir a leitura p. d. (que usa aliás o alibi de se incrustar na cena e, portanto, permite alegar-se que ainda era tudo somente um ensaio) e a representação (da cena com duas leitoras indecisas quanto ao que devam ler). Direi que a representação é muito boa; e que a leitura é bastante boa mas está abaixo daquela. Esta tem como mais-valias os momentos de elocução em comum ou de passagem de testemunho (de leitora a leitora) e o facto de se incorporar naturalmente na narrativa que serviu de estratagema. Erros na leitura do texto de Campos: em vez de «Dada a grande sombra» seria «Dados à grande sombra»; em vez de «um grande espasmo soluça», «um grande pasmo soluça»; «vagos vultos nocturnos» também não me pareceu perfeito. Concepção Estratégia fundamental do filme é exibir-se o próprio acto de realização (veja-se o início com contagem decrescente e inclusão de trechos falhados; o slide manuscrito final, que descreve as várias colaborações, assim realçando o decurso das filmagens; e, claro, a conversa das duas personagens em torno da necessidade de se fazer um ibisfilme). Esta abordagem – de mostrar sobretudo o processo mais do que se focar no produto – não inibe as autoras de, entretanto, cumprirem mesmo, como se não o quisessem fazer, o produto pedido (a leitura do poema). Há rigor na planificação e no acabamento do filme, bem como conhecimento das características do género, o que tem reflexos positivos em termos estéticos, resultando de tudo um objecto elegante, inteligente. (Sempre míope e entretido com a leitura em voz alta, das primeiras vezes que vi o filme não me apercebera da presença, ia dizer valorizadora, dos três heterónimos de Pessoa, um pouco ao fundo. Enfim, dadas as figuras que fazem, só me admiro que não tenham sido instados pelo pessoal da Brasileira a rapidamente se porem a andar.) Pessoa Autógrafo do poema de Caeiro (vendo-se que a última versão não é a que ficou na tradição da Ática): http://purl.pt/1000/1/alberto-caeiro/obras/bn-acpc-e-e3/bn-acpc-e-e3_item268/P1.html . Quanto ao poema de Campos, convém lembrar que é bastante maior do que foi possível Raquel e Soraia lerem. Duração 2:47

João Af. D.

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«Se sou alegre ou sou triste?...» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/2623
«A música, sim a música...» (Álvaro de Campos)
http://arquivopessoa.net/textos/945
João Af. D. (18,8) Expressão oral Não encontro uma única falha na leitura dos textos de Pessoa nem no texto criado pelo autor do filme. Forçando o que possa haver de criticável, direi só que a leitura dos poemas me parece sempre natural mas que a do texto autobiográfico talvez seja, embora muito pontualmente, excessivamente embevecida, de certo modo escolar, ao marcar as entoações aqui e ali. Em todo o caso, muito boas leituras ambas. Concepção Um poema de Campos introduz o tema do filme, ou um dos temas, a música. Findo este, vem um texto criado pelo autor, que retoma o assunto, agora de um ponto de vista autobiográfico, e, a pouco e pouco, vai estabelecendo uma ponte com o texto de Pessoa que fecha o filme (este segundo poema acaba por aparecer como resposta a uma pergunta que surge no tal texto-ponte). As imagens e a música (cfr. http://www.youtube.com/watch?v=0LPxU7659D4 ) são mais ilustrativas do que significantes, mas mostram-se muito apropriadas (não interferem escusadamente no que é transmitido linguisticamente; são coerentes com esse texto oral; são cuidadas e sóbrias); têm ainda o picante de implicarem o exercício (a execução musical) que é o tema do filme (e executarem a música que se ouve). Tudo é resultado de excelente planificação e rigor de execução. Escrita Procurando encontrar pontos melhoráveis: o texto criado padece, aqui e ali, de fórmulas relativamente banalizadas (digamos: lugares comuns da reflexão memorialística); embora seja mudança claramente em curso e irreversível, a «tem que» deveríamos preferir «tem de». Duração 3:11

Ângela

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«Qualquer coisa de obscuro permanece» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/2458
Ângela (14) Expressão oral Leitura foi bastante razoável, mas, quanto a mim, ganharia em ser menos enfática, menos sonora, por assim dizer. É certo que o estilo teatral, grave, favorece as frases, as palavras, que ficam assim realçadas, claras e destacadas; traduz-se menos bem, porém, o sentido geral, mais lírico, intimista, que creio ser o apropriado a este soneto. Notei dois lapsos, ambos no último terceto: «resumiu-se» por «remiu-se»; «consigo» por «comigo». Há também um problema, mais de pontuação, que encontro duas vezes: não pode haver pausa na transição entre versos nestes dois casos: «Feita de solidão e de começo / Fruste, meu ser anónimo confesso»; «Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente / Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia». (Tratando-se de texto curto, estes erros são menos perdoáveis.) Concepção Lê-se o soneto, enquanto passa curto filme (que não é incoerente com o poema, funcionando como uma de múltiplas ilustrações que o texto poderia ter). Pessoa «Dream» não é um título nem um verso. É um daqueles apontamentos, quase sempre em inglês (a língua que mais espontaneamente lhe ocorre), que Pessoa escrevia à margem dos textos mas que não se destinariam à versão para os leitores: significa que o poeta considerava este texto como um ‘sonho’ (mais uma razão para adoptarmos, na sua leitura, um registo mais leve, mais coloquial) Duração 1:03

Cláudia

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«Tenho tanto sentimento» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/2174
Cláudia (17,5) Concepção Não há filme próprio mas composição com imagens soltas — feita com cuidado e procurando aproveitar ao máximo a sensação de movimento retirável de efeitos disponíveis. Na parte relativa ao poema de Pessoa, usam-se efeitos abstractos (aleatórios?), o que acaba por ser boa solução, na medida em que essa abstracção nos motiva para uma focagem maior nas palavras do poema (além de que se representa assim a complexidade intimista do texto). Há com efeito dois formatos no trabalho da Cláudia. Há uma primeira parte que funciona como microfilme autobiográfico, escrita pela autora. Vem depois a leitura do poema, que se encaixa bem no que antes fora dito mas não deixa de ser reconhecível como momento autónomo (até pelas imagens). Terminado o poema, regressa-se ao registo memorialístico (aliás mais prospectivo do que retrospectivo). A autora tem grande capacidade para escrever estes textos autobiográficos — um pouco lamechas, reconhece, Cláudia —, sabe conjugá-los bem com a música e as imagens. Expressão oral Muito boas tanto a leitura do texto criado como a do poema de Pessoa. Não se nota já o hábito de comer os finais das frases que antes era idiossincrasia. Só notei uma dessas logofagias: «imp’d’rão». Na leitura do poema de Pessoa, no começo da segunda sextilha, teria evitado marcar tanto as pausas das vírgulas em «Temos, todos que vivemos, uma vida» (as vírgulas nem sempre têm de ter tradução na oralidade). Escrita Tenho dúvidas sobre a gramaticalidade da parte que se segue a «aquela pessoa» (não sei se compreendi toda a sintaxe aí). A «sou uma dessas pessoas que tem» preferiria «sou uma dessas pessoas que têm». Na referência do poema, era de pôr «Fernando Pessoa» (em vez de «Pessoa Ortónimo», que devemos reservar para o discurso corrido ou para explicações escolares; nas referências convém sermos absolutamente objectivos). «Sob o título do poema O que digo a seguir é bastante irrelevante, mas aí vai: a melhor maneira de escrever «12.º 1.ª / n.º 4» é assim mesmo, com os pontos de abreviatura, que ponho sempre, na vã esperança de que reparem neles e os ponham também vocês. Duração 2:56

João G.

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«António de Oliveira Salazar» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/4357
bem como mais alguns outros textos anti-salazistas (n.º 296, 297 em http://gavetadenuvens.blogspot.com/2009/09/9.html)
João G. (17,5) Concepção O filme começa com trechos da série ‘Grandes Portugueses’, como se sabe, vencida por Salazar. Aparecerá depois variada iconografia do Estado Novo (recolhida na mesma série, salvo erro, ou em outro documentário). São estas imagens que vão acompanhando a leitura em voz alta de vários textos, escritos por Pessoa já no ano de 1935, o último da sua vida, com referências — pejorativas a Salazar e ao Estado Novo. As imagens finais, com a declaração da vitória de Salazar no citado programa conjugada com a sátira de Pessoa (e, sobretudo, o último dístico do poema «Solemnemente» — vão para o Salazar / Que é a puta que os pariu»), adquirem valor irónico. Acabamos, por isso, por ter uma narrativa (e não apenas excertos de documentário). Esta reunião de textos também implicou rigor na pesquisa. Expressão oral Bastane perfeita a leitura, sem falhas concretas (e os textos não eram fáceis), a não ser talvez as que aponto a seguir. Genericamente, admito que se pudesse usar um estilo mais rápido, explicitamente jocoso, brincalhão, menos neutro e sério. No poema à Emissora Nacional, «Para a gente se entreter», os dois últimos versos («E então quando são do teor / Do chatazar já citado!») deviam ter saído mais exclamativos, testemunhando uma admiração de gozo. Neste mesmo poema, creio que era possível dar a «Salazar-disse Emissora» uma pronúncia que deixasse claro que «Salazar-disse» é um epíteto depreciativo e que o sintagma corresponde a um nome suposto, neologismo de troça, da Emissora Nacional. No poema «Coitadinho do tiraninho», o final «Nem até / Café» ficava melhor com pausa entre os dois versos (para «café» resultar cómico). Pessoa Estes textos não são dos melhores de Pessoa, têm um objectivo naturalmente panfletário. As razões desta animosidade de Pessoa contra o Estado Novo explica-as o próprio João em slide final (também relato o caso no comentário que faço ao filme de Mariana, porque inclui «Liberdade», outro poema que responde ao mesmo ímpeto — e que, ao contrário destes, até acabou por entrar no cânone dos textos pessoanos «sérios»). Duração 2:29

Mariana

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«Aqui onde se espera» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/70
«Dizem?» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/2014
«Liberdade» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/4307
Mariana (15,8) Expressão oral A leitura dos três poemas foi clara e gramaticalmente correcta. Diria que as excessivas clareza, «pontuação» oral, até a sonoridade, devidas provavelmente ao cuidado posto em não cometer lapsos, talvez dificultem que a expressividade seja a ideal. No primeiro texto, fica a faltar o registo de balada, mais ligeiro em termos rítimicos (ainda que se trate, é claro, de texto de sentido complexo). Neste poema, hesito sobre se a pronúncia deve ser «soss[ê]go» (substantivo) ou «soss[é]go» (1.ª pessoa do Presente do Indicativo). Hoje em dia, são palavras homógrafas (escritas ambas «sossego»). Para Pessoa, não era bem assim, ou não foi sempre assim. Tenderia a distinguir o substantivo «socêgo» (escrevia com «c») e a forma verbal «socego» ou, mesmo, «socègo». O que está nos autógrafos deste texto é «socego» (sem acento), pelo que podíamos presumir que se tratasse da forma verbal «[eu] sossego», só que, excepcionalmente, não será bem assim, já que há vários «socegos» sem acento circunflexo que são o nome e não o verbo (é verdade que também, em textos da mesma época, se encontra o «socêgo» com acento, o que significa que o meu raciocínio genérico não é descabido). Enfim, vou aceitar que a Mariana fez bem em ler «sossego» como nome, mas não podemos descartar que fosse afinal «[eu] sossego» (verbo, com «e» aberto). No contexto do poema, não sei dizer qual a forma mais provável. Uma ligeira falha na entoação aconteceu no ataque à interrogação que fecha o poema: é que a pergunta começa logo em «Que mais quer quem descansa [...]» e é este o verso crucial para marcar a interrogação (Mariana fá-lo sobretudoi no último verso, perdendo-se bastante o sentido da pergunta). No segundo poema, também não há lapsos, mas eu continuaria a defener um registo mais leve (era importante acentuar que os versos são sempre curtos, monossilábicos, dissilábicos ou trissilábicos, o que se conseguiria imprimindo à leitura uma velocidade maior e um ritmo mais próximo do do par pergunta/resposta). O último dístico («— Tudo é / Sonhar») talvez devesse ser mais neutro, evitando-se o tom de espanto quase escolar. O conselho que dei a propósito das outras leituras — procurar um registo menos rígido, quase brincalhão — tem também razão de ser no caso do célebre «Liberdade» (este poema é todo ele irónico — poderia essa ironia ser marcada por um exagerado embevecimento, tornando-a explícita por ficar tão excessiva a assunção do que se diz, ou por o tal estilo saltitante, leve, que defendi). Como resumirei em baixo, este poema tem muito que se lhe diga (a versão que está nos livros da Ática e nos manuais escolares está mal editada). Além desses erros normais, a versão que usou a Mariana — a do Arquivo Pessoa — acrescenta ainda outro lapso: é «quando há bruma» (e não «quanto há bruma» — nem esta grafia fazia sentido). De qualquer modo, nisso a Mariana tem muitas atenuantes. Não já nisto: eu dissera nas instruções da tarefa que deviam evitar este poema, porque já fora usado por Carlota há tempos [10.º 2.ª:
http://gavetadenuvens.blogspot.com/2007/09/10-2.html ]). Concepção Para os dois primeiros poemas usam-se imagens da Casa Fernando Pessoa (creio que os quadros correspondem a exposição que lá estivesse?), modo interessante de de ocupar o espaço das imagens enquanto se ouvem os textos (o filme funciona como informação adicional, mais do que como ilustração do poema); para o terceiro texto, as imagens são de lombadas de livros, o que já procura ser emblemático e é igualmene boa solução. Pessoa O último verso do poema «Aqui onde se espera» é, na última versão nos manuscritos, «Do que os desejos são?» (é o único acrescento que faz o poeta, alternativo a «De todo o coração?»), como se vê na edição crítica de Ivo Castro (Poemas de Fernando Pessoa de 1931-1933). Quanto ao texto «Liberdade» não me quero alargar aqui, mas a sua história é bastante atribulada (expliquei-a em «O melhor do mundo não são as crianças», Ivo Castro & Inês Duarte (orgs.), Razões e emoção. Miscelânea de estudos em homenagem a Maria Helena Mira Mateus, 2, pp. 217-238, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003 — desculpa a pirosice de me citar —, artigo para que, logo que possa, porei aqui link). É um poema de resposta, irónica, a um discurso de Salazar, o discurso feito na entrega dos prémios do SPN (depois SNI), a que Pessoa não compareceu, apesar de Mensagem ter sido também contemplada. Como João G. diz no seu ibisfilme, por esta altura, cerca de Março de 1935, Pessoa escrevera uma série de textos anti-salazaristas (esta revolta do poeta perante o Estado Novo e Salazar teve que ver com a aprovação de uma lei, considerada desfavorecedora da Maçonaria, o que ocorrera pouco antes). «Liberdade» circulou clandestinamente (na altura, era óbvio a quem se dirigia), mas, posteriormente, foi-se perdendo a noção do carácter pontual e jocoso do texto. A correcta edição do texto pode ver-se em http://gavetadenuvens.blogspot.com/2009/09/9.html (é o n.º 288). Há três ou quatro diferenças relativamente à fixação tradicional (uma delas: o que Pessoa escreveu foi «o melhor do mundo são crianças, flores, musica, o luar, e o sol», o que, afinal, é desvalorizador da importância dada às crianças na máxima que acabou por ficar popularmente). Duração 2:10

Gonçalo, Rui, Tiago

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«P-há» (Álvaro de Campos)
http://arquivopessoa.net/textos/3456
«Em Ceres Anoitece» (Ricardo Reis)
http://arquivopessoa.net/textos/9
«Báquica Medieval» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/186
«Meu cérebro fotográfico...» (Álvaro de Campos)
http://arquivopessoa.net/textos/697
«Natal» (Fernando Pessoa)
http://arquivopessoa.net/textos/2040
«Arre, que tanto é muito pouco!» (Álvaro de Campos)
http://arquivopessoa.net/textos/3224
Gonçalo, Rui, Tiago (18,6) Concepção Conjunto de fragmentos, relativamente independentes: o capítulo 1 é a representação, pelo trio em causa e ainda João Marcelo, do episódio 4 de «A Pandilha», mantendo-se o som do original (à paródia do episódio da Pandilha, em torno da publicidade, somam-se aqui aspectos de caracterização das personagens (óculos, papel nas costas do técnico) — o registo é o do absurdo mágico, digamos assim; o capítulo 2 é uma paródia mais linguística, de caricatura ao discurso intelectual (valia a pena esclarecer se a encenação aqui foi trabalhada ou se há mérito sobretudo do improviso do actor, já que, além do texto, há uma série de tiques paralinguísticos — as pausas, os gestos — que concorrem para a construção do retrato (acutilante e, no entanto, quase verosímil; texto — se houve texto prévio — é muito bom); o capítulo 3, o maior e mais significativo em termos escolares, mantém o registo de disparate, mas agora pelo contraste entre os poemas lidos e a trupe que vamos vendo e ouvindo, em fundo — se isolássemos as leituras dos textos de Pessoa e heterónimos desse enquadramento extraordinário, tínhamos convencionais, aliás muito boas, leituras de poemas; o capítulo iii (seria iv, mas haverá brincadeira, como no resto do slide) retoma a paródia ao discurso vago, convicto, embevecido de quem fala sobre Pessoa — à segunda vez, o tom caricatural é mais notável (mais paródia agora do que pastiche); o final, «capítulo vê [por quinto]», já tem o diapositivo como elemento irrisório, depois a acumulação de recursos de som e imagem acentua a índole de brincadeira formal. Expressão oral Ocupo-me sobretudo do capítulo do miolo, o maior. Muito boas leituras: quase irrepreensível a de Ricardo Reis por Gonçalo (sem a sobreexpressividade irritante dos actores a lerem poesia, mas também nada neutra, a perceber-se que percebeu o texto; direi só que em «das flores / das searas» deve haver provavelmente pausa, a vírgula ausente dever-se-á à coincidência com o final da linha); muito correcta também a de Rui, em «P-há», com uma série de dificuldades a vencer, sobretudo as relacionadas com a imitação do estilo coloquial de Campos (não é fácil seguir esse tom de conversa de quem está pensar, sem marcar demasiado a pontuação ou saltar a sintaxe original; houve apenas uma ligeiríssima falha no segundo verso, porque o determinante de «a inteligência» foi quase comido); a leitura que assumiu mais riscos foi a de «Báquica Medieval», por Tiago, que me pareceu também muito boa e sem falhas (talvez apenas no antepenúltimo verso se não oiça o «que» inicial de «que há três coisas que Deus proibiu»), ainda que discutível quanto à opção histriónica (que implica encenarmos o poema equanto episódio do quotidiano, o que não sei se seria intenção de Pessoa); a segunda leitura de Rui, de novo Campos («Meu cérebro fotográfico...») talvez exigisse mais velocidade, mais nervo, para se transmitir a instabilidade, o movimento, que se percebe neste poema ao estilo futurista; há uma gralha no segundo verso, que os devia ter levado a investigarem o caso (é claro que «cies» não existe; é «caes» que está no original de Pessoa, correspondente a «cais» actual); a pronúncia de «fiscal», em Lisboa, não será bem «f[i]scal» (dizemos o «i» como «e» mudo: «f[ə]scal»); «Natal» foi lido a duas vozes, em eco, o que quase impede que esteja atento àos raríssimos lapsos que poderia haver (notei, ainda assim, que Gonçalo leu «et[ε]rnidade», quando o «e» tem de ser mudo, «et[ə]rnidade»); excelente leitura a de «Arre, que tanto é muito pouco!», em que participaram todos (ou, pelo menos, Tiago e Gonçalo). Duração 7:23

Hugo & João A.

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«Nun’Álvares Pereira» (Fernando Pessoa, Mensagem)
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«O Desejado» (Fernando Pessoa, Mensagem)
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João A. & Hugo (16,5) Concepção É a leitura de dois poemas de Mensagem, usando como enquadamento cénico pouco mais que as peripécias da própria realização do filme. Vê-se que há bom domínio da técnica, que haveria — se fosse caso — sensibilidade estética (reconhece-se isso quer na montagem quer nas fórmulas encontradas para resolver a sequência de imagens), mas não parece ter-se pensado suficientemente no modo de associar aos poemas escolhidos matéria mais substantiva. Fico com a ideia de que houve que resolver em pouco tempo uma tarefa que ambos os autores, com outra disponibilidade, teriam elaborado mais finamente. Expressão oral Na leitura de Hugo, a do poema dedicado a Nuno Álvares Pereira, não há erros, a não ser talvez exagerada pausa ante dos modificadores intercalados («volteando» e, mas menos, «a ungida»). O facto de estarem entre vírgulas no texto escrito não implica fronteiras tão explícitas. Além disso, aconselharia um registo menos «blasé» (mais grave, mais convicto). Na leitura de João, a de um dos poemas dedicados a D. Sebastião, notei uma abordagem demasiado detida em cada palavra (como se o texto ainda não estivesse suficientemente interiorizado e fosse sendo reconhecido no momento). Também aqui não há propriamente erros, mas percebe-se ainda o mesmo tom de quem não acredita muito no que está a ler (como se tanto Hugo como, agora, João quisessem marcar o seu distanciamento do poema, uma subliminar ironia — de quem diz ‘não levem a sério esta leitura; eu próprio não acredito nos poemas’). Escrita Em dois dos slides aparece «A Mensagem»; ora o título do livro é Mensagem, sem artigo. Duração 1:53

Pedro I

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«Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua» (Alberto Caeiro)
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Pedro I (17) Expressão oral A leitura é quase dramatizada, o que significava mais probabilidades de haver alguma entoação mal decidida, pontuação mal interpretada, alguma pronúncia de palavra incorrecta tornada assim mais evidente. Ora nada disto sucede: a leitura não tem um único erro. Creio só que «Traz! na realidade que não falta!» exige a interpretação de «traz» como expressão que rege «na realidade», o que afasta a possibiliade de haver pausa; entretanto, o ponto de exclamação é para marcar apenas o valor interjectivo de «traz», não obriga a paragem. E talvez fosse escusado ler como título o primeiro verso: adopta-se o primeiro verso como modo de referir um poema que não tenha título; não devemos depois dar a esse «título meramente para efeitos bibliográficos» o relevo que teria um título escolhido pelo autor. (No entanto, devo dizer que me parece mais adequado a Caeiro um estilo de leitura desprendido, de quem vai conversando-pensando. No registo que adoptou, repito, a leitura de Pedro é muito boa.) Concepção O formato é bastante simples: enquanto decorre a leitura do poema, vamos vendo diapositivos em que figuram Pedro e outros colegas. Em geral, os poemas de Caeiro são associados à natureza, ao campo, raramente os ilustram pessoas. Porém, como se vê neste ibisfilme, a absoluta conformidade do guardador de rebanhos com o que a vida lhe apresenta pode muito bem sugerir a placidez da amizade, a paz de um convívio, a saudade de uma tarde bem passada. Que tenham muitas tardes assim, Pedro, Brigitta, Cláudia, Diogo, Eliana, João, Soraia. Duração 1:53

Luís

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«Como um grande borrão de fogo sujo» (Alberto Caeiro)
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«O mar jaz. Gemem em segredo os ventos» (Ricardo Reis)
http://arquivopessoa.net/textos/435
Luís (17,1) Concepção Criou-se um pretexto narrativo para surgirem, inseridas nesse relato, leituras de poemas de Caeiro e de Reis. As imagens, recolhidas com cuidado, acompanham sobretudo o primeiro nível narrativo (o narrador, o espaço para que se salta); são mais circunstanciais no caso da ilustração dos poemas (aqui os planos são quase fixos ou slides, o que favorece a identificação como segundo nível narrativo — o que não é despiciendo, porque os encaixes estão talvez, em termos de voz, pouco assinalados). O filme mostra boa planificação, capacidade para contar uma história, consistência na investigação necessária, escrita segura. Expressão oral Distinguiria a leitura do texto de primeiro nível, o concebido por Luís, da leitura dos textos encaixados, os poemas de Pessoa. A leitura da narrativa que serve de moldura enquadradora acaba por ser mais difícil, por exigir um estilo monologal, confessional, que é difícil de representar (o que se deve à própria situação: não esperamos ver ditos em voz alta os nossos textos diarísticos ou, ainda menos, os momentos em que «pensamos em voz alta»). A estratégia usada foi a de adocicar o registo, tornando-o didáctico, o que implica que o reconheçamos como um tanto artificial, escolar. Isto manifesta-se na entoação das interrogativas (mais estilizada enquanto tradução de registo escrito do que realística, natural). Em termos de leitura era difícil fazer melhor (a solução estaria na própria redacção, que poderia tentar advertir, torneando-as, estas dificuldades, talvez pela adopção de um relato menos directo, menos explicitador). Ainda assim, houve momentos em que se poderia ter escapado à monitorização pelo apontamento escrito (lembro-me de um «e // como // ambos concordávamos [...]» em que surgem pausas que na conversa espontânea não aconteceriam; fiquei com a ieia de que, neste passo, o original escrito teria pontuação a mais; e, por vezes, houve ligeira velociadade a mais). No poema de Reis, leria os dois és em «Neera». Na leitura do poema de Caeiro, aconselharia que se evitasse «qu’aparece» por «qu[j]aparece» (devemos fugir a estas ‘sinalefas’ que derivam da língua oral corrente mas que seriam plebeísmos na recitação de texto literário, que supõe formalidade). De qualquer modo, a leitura em voz alta é bastante boa, não se encontrando erros (de má pronúncia ou de má interpretação do texto de Pessoa). Pessoa Só um esclarecimento desnecessário. Na verdade, a casa do Largo de São Carlos não implica um salto para o século passado (XX) mas um salto maior, para o século XIX, já que foi a casa que Pessoa habitou no início da vida (Pessoa nasceu ainda em 1888). Por coincidência, o pai de Pessoa, crítico musical, era visita assídua do São Carlos. Duração 3:10

Sílvia

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«D. João o Segundo» (Fernando Pessoa, Mensagem)
http://arquivopessoa.net/textos/196
Sílvia (18,5) Concepção Embora a Sílvia seja excelente leitora, não foi nesse domínio que investiu neste ibisfilme. Com efeito, o poema lido é pequeno e, no fundo, acaba por ser sobretudo pretexto para se lhe agregarem música (de quem? Pedro Barroso ou outro baladeiro do género? era preciso identificar, uma das poucas críticas que farei) e desenhos da própria autora. Estas pinturas são estilizações com alguma coisa de Miró ou de certo Matisse. Considero-as bastante agradáveis — o que é subjectivo, é claro; além disso, implicaram mais conhecimentos históricos, culturais, do que se possa julgar e mostram bastante técnica e sensibilidade artística — o que já é objectivo. Valia a pena ponderar o efeito que resulta do contraste entre o tom profético de Mensagem, presente nas curtas duas quadras lidas, e música e imagens num registo didáctico: a música funciona como coro do poema de Pessoa, mais do que como contraponto, irónico que fosse. Expressão oral Muito boa leitura. É certo que o poema é pequeno, mas tem a sintaxe difícil do Pessoa de Mensagem e não há nenhuma falha. Duração 3:16

Ricardo L.

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«Esta tarde a trovoada caiu» (Alberto Caeiro)
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Ricardo L. (18,5) Concepção O dispositivo é o de certas narrativas que usam um encaixe, uma narrativa segunda, com elemento de uma a virem ao encontro da outra. A estratégia é usada em filmes de terror: alguém lê notícia acerca dos horrendos crimes que um assassino vem cometendo (a notícia é o encaixe); o protagonista dessa segunda narrativa irá tocar à porta do leitor da notícia, o herói da narrativa primeira. No ibisfilme de Ricardo é a chuva que é comum aos dois níveis narrativos, (i) o da casa num dia chuvoso, (2) o do poema que o protagonista se lembra de começar a ler. É, portanto, a chuva que atravessa os dois níveis, fazendo o papel de assassino que invade um nível que não é o seu (embora, neste caso, do primeiro para o segundo nível). Para mim, é relativamente inesperado que, após a leitura do poema, não se tenha retomado a visão da chuva, no primeiro nível narrativo. Em vez disso, preferiu-se uma solução de fecho que afronta as características do género, o comentário «hum, não é mau». Expressão oral Há dois orais: o do primeiro nível narrativo — monólogo, bem representado, em registo propositadamente displicente — e o da leitura do poema, que é interrompida a dado momento para se fechar a televisão, e que tem, no início, sobretudo, um tom de quem não saiu completamente do primeiro nível narrativo — Ricardo lê como se estivesse a imitar um leitor —, o que não se chega a perceber se é estratégia defensiva de quem prefere não assumir um estilo mais empenhado. A leitura do poema é perfeitíssima (do ponto de vista gramatical; quanto à expressividade, além da reserva que fiz atrás, haveria sempre que discutir se é este o estilo conveniene a Alberto Caeiro). Notei só dois lapsos (aliás, lapso e meio, porque no primeiro caso não tenho a certeza de ter ouvido bem): no último verso da primeira estrofe, diz-se «enegrecia» (por colagem ao imperfeito do verso anterior), quando o que está no texto de Caeiro é «enegreceu»; por outro lado, no último verso da segunda estrofe, «Como se eu fosse a velha tia de alguém...», elidiu-se o «eu» (talvez por se julgar que o verbo se reportava a Santa Bárbara e não ao sujeito poético). Pessoa Este poema foi também lido por
Tomé, do 12.º 6.ª. Duração 2:26

Ricardo V.

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«Segue o teu destino» (Ricardo Reis)
http://arquivopessoa.net/textos/602
Ricardo V. (16,3) Concepção Formato escolhido é económico: leitura em voz alta, com acompanhamento de música, sobre um filme que não será do autor (nestes casos, o ideal era que constasse a exacta fonte; o mesmo se diga da referência para a música). Bom acabamento, em termos estéticos, embora a música esconda um tanto o texto (não me reporto apenas ao volume, mas até à cadência que acaba por se sobrepor à da recitação). Expressão oral. A leitura é irrepreensível (talvez apenas o «simplesmente» da terceira estrofe me tivesse parecido demasiado enfático — dito como foi tende a funcionar como modificador de toda a frase, quando julgo que para o poeta era para ser um mero modificador do verbo: «viver simplesmente», não «viver, simplesmente»). No entanto, deve dizer-se que o texto não punha grandes dificuldades e que o próprio ritmo de leitura (pausado — demasiado pausado até?) atenuava as que porventura houvesse. Enfim, é um trabalho limpo, mas aquém do que o Ricardo seria capaz criar. Duração 1:58

Pedro II

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«Uma vontade física de comer o Universo» (Álvaro de Campos)
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Pedro II (15,7) Concepção O poema de Campos é ilustrado com imagens, que se procurou fossem relativamente directas (o que eu desaconselhava nas intruções para os ibisfilmes!): primeiro, o próprio autor abocanha a Terra (não exactamente o universo); depois, surgem fotos de lugares a que, de certo modo, o poema alude; por fim, imagens do universo, correspondentes à terceira estrofe. Preferia que se tivesse encontrado equivalentes visuais menos colados aos substantivos do poema e resultantes de trabalho mais interpretativo. Expressão oral A leitura é boa, quase não tem falhas de ordem gramatical ou lexical. Detecto apenas, no verso «Para os lugares que — custa a crer — realmente existem», excesso de pontuação (marcou-se demasiado a pontuação gráfica existente e ainda se supôs uma vírgula antes do «que»). Porém, se considerarmos a expressividade, podemos admitir que ao poema de Campos convinha mais velocidade (melhor: mais mudanças de velocidade). Como acontece tantas vezes com a poesia de Álvaro de Campos, o texto exprime ânsia, sofreguidão, enfim, «uma vontade física de comer o universo», o que convidava a uma leitura com mais inflexões à velocidade de base. Duração 1:53